Mal de Chagas: mais de cem anos e pouco a ser comemorado

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      Em parceria com estados e municípios, o governos federal está intensificando as ações de combate às doenças negligenciadas (para saber mais, veja o quadro). Atualmente o Ministério da Saúde autorizou o repasse de R$ 25,9 milhões para os estados fortalecerem seus municípios com ações de vigilância epidemiológica - promoção, prevenção e controle - contra várias doenças, dentre elas, o mal de Chagas (também chamada de doença de Chagas).

        Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), o Brasil perde o equivalente a pelo menos R$ 9 milhões a cada ano com ausências trabalhistas ocasionadas pela doença. Os municípios, para conseguirem recursos, definiram com seus estados os planos de ações que futuramente serão aplicados em cada região considerada endêmica.

       Os dados mais recentes apontam que a Doença de Chagas permanece como um problema de saúde pública em todos os países da América Latina, sendo sua distribuição nos países da América do sul até o sul dos Estados Unidos. Atualmente, a Doença de Chagas é a quarta causa de morte no Brasil entre as  doenças infecto-parasitárias, sendo a faixa etária mais atingida acima de 45 anos.

         O desenvolvimento de novas drogas para o tratamento desta doença não é de grande interesse da indústria farmacêutica, pelo alto custo de investimento e pela falta de um mercado seguro nos países em desenvolvimento. De forma geral, o desenvolvimento de novas drogas ocorre através da utilização de princípios ativos de plantas, da investigação de drogas já aprovadas para o tratamento de outras doenças, e através da identificação de alvos específicos nas vias metabólicas do parasita.

       Conversamos com Dra. Mariana Magnus, que trabalha na Divisão de Hemoterapia do Hemocentro. Ela é responsável pelo ambulatório de sororeagentes, que faz o atendimento aos doadores de sangue com alteração nos exames de triagem sorológica, e nos esclareceu pontos importantes sobre a doença de Chagas. Confira:

Infográfico: Ivan AlvesComo acontece o contágio da doença de Chagas

 

1- Cem anos após a descoberta da doença pelo cientista brasileiro Carlos Chagas, é correto afirmar que há pouco a se comemorar com relação ao combate?

 

Dra. Mariana - Houve um notável esforço para eliminar a transmissão domiciliar pelos Triatomíneos [insetos barbeiros], sendo que em 2006 o Brasil recebeu a certificação pela interrupção da transmissão da Doença de Chagas pelo Triatoma infestans. Porém existem outras espécies que também podem transmitir a doença, onde pouco tem sido estudado. No Nordeste brasileiro, por exemplo, existem espécies de Triatomíneos silvestres que se adaptam bem as moradias e que  funcionam como vetores da doença. Ainda hoje temos uma porcentagem significativas de pessoas infectadas que se apresentam assintomáticas e que poderão desenvolver sintomas clínicos a longo prazo.

 

 

2 - O que falta para esta doença ser erradicada ou pelo menos controlada ao redor do mundo?

 

Dra. Mariana - Torna-se necessário um conjunto de ações preventivas governamentais, com manutenção do combate ao vetor principal e constante controle das outras espécies importantes na transmissão; com detecção precoce dos casos de pessoas infectadas para medidas de prevenção secundária e  com constante investigação epidemiológica dos casos agudos, que ocorrem por transmissão vetorial, oral, vertical e transfusional. É importante ressaltar que com a migração rural em direção aos centros urbanos tornou-se importante a transmissão transfusional, sendo necessário um rigoroso controle nos bancos de sangue. Além disso, é fundamental a elevação dos padrões sociais da população, com programas de melhoria de moradias rurais, nas quais insetos vetores não consigam colonizar. Maior atenção deve ser dada principalmente a populações vivendo distantes de qualquer atenção a saúde e sem possibilidade de tratamento e monitorização adequada.

 

 

3- O Ministério da Saúde liberou verba para os estados controlarem doenças negligenciadas. De que maneira o dinheiro seria bem aplicado para a prevenção?

 

Dra. Mariana - Através da melhoria das condições habitacionais principalmente em zonas rurais e da melhoria dos padrões sociais das populações mais pobres e mais distantes dos centros urbanos, juntamente com o constante combate aos vetores silvestres. Além disso, torna-se necessário monitorar periodicamente a infecção na população humana, com aumento do diagnóstico precoce possibilitando medidas de controle e de prevenção secundária. Manter os cuidados com as pessoas infectadas pelo parasita, com ou sem manifestações clínicas, e investir em pesquisa para melhoria do tratamento e para desenvolvimento de uma vacina eficaz possibilitando maior prevenção da doença.

 

4- Quanto aos pacientes infectados, especificamente de estados pobres do país, como é a qualidade de vida deles atualmente?

 

Dra. Mariana - Os pacientes com infecção crônica sofrem limitações físicas e sociais em consequência das manifestação cardíacas e  digestivas da doença. Ocorreram avanços principalmente no tratamento da forma cardíaca, tanto no tratamento medicamentoso como no tratamento cirúrgico com a colocação de marca-passos, o que contribuiu com a melhora da qualidade de vida destes pacientes. Porém, em regiões mais pobres existem contingentes de pessoas infectadas sem acesso a condições de saúde e sem tratamento, com doença clínica progressiva e limitante, sendo esta muitas vezes a causa morte.

 

 

5- Os dois únicos medicamentos existentes atualmente (benznidazol e nifurtimox) foram desenvolvidos há quase 40 anos e em pesquisas não especificamente destinadas à Chagas. De que maneira as pesquisas atuais caminham para tratamentos mais eficazes?

 

Dra. Mariana - As drogas benznidazol e nifurtimox não são tratamentos ideais pela baixa eficácia durante a fase crônica da doença, alta toxicidade e alto custo necessitando de administração por longos períodos de tempo e sob supervisão médica. Novos alvos de pesquisa para o combate ao Trypanossoma cruzi incluem o bloqueio da síntese de esteróis, ligantes do DNA que inibem sua transcrição e drogas que inibem diversas enzimas de vias metabólicas chave para o parasita. Apesar do conhecimento de diferentes classes de medicamentos que apresentam atividade in vitro e in vivo sobre o T. Cruzi, somente alopurinol, fluconazol, itraconazol e posoconazol foram submetidos a ensaios clínicos. O posoconazol é atualmente a grande esperança no tratamento da doença de Chagas e está em fase de experimentação em seres humanos.

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